Com originalidade, carisma e letras apimentadas, a diva setentona nasceu como estrela, mas só conseguiu brilhar após a aposentadoria. Agora, curte o sucesso meteórico.

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Com traços de Carmen Miranda e Cora Coralina, seja na essência ou na história, ela surge no meio do Pitiú do Mercado Ver-o-Peso avisando que “lá é pop star no meio da malandragem, fica bem na foto, na entrevista e na reportagem”. Essa é a Dona Onete, a rainha do Carimbó paraense, que há alguns anos vem ganhando o mundo com sua voz rouquinha e ritmo bem brasileiro. Do primeiro CD lançado em 2012 até agora, ela não parou mais. Aos quase 79 anos, cumpre uma agenda intensa de compromissos: turnês e shows em várias cidades dentro e fora do Brasil, entrevistas, fotos, ensaios e ainda guarda um tempinho para curtir os filhos, os netos e bisnetos.

A trajetória de Ionete da Silveira Gama é curiosa. Foi professora de história e estudos paraenses, secretária de cultura em Igarapé-Miri, filiada a um partido político de esquerda e organizadora de grupos folclóricos carnavalescos. Mas, até a aposentadoria aos 62 anos, nunca havia sido uma cantora de fama internacional. Sempre cantarolou e escreveu mais de 300 composições, apesar da represália do primeiro marido, que tinha ciúmes do seu lado artístico e nunca a incentivou.

“Valeu a pena o casamento. Naquela época moça que não casasse ficava solteira, falada… A família ficava sem graça perante as outras famílias. Os anos 1950 e 1960 foram fogo para se viver como moça solteira. Tinha esse casamento metido pelo meio e cumpri a minha parte. Fiquei até onde deu. Mas fui me empoderando, estudando… Me formei e me empreguei. Quando vi que tinha 250, 280 horas de carga horária de trabalho para poder sobreviver com meus filhos, eu o larguei. Simplesmente chutei o balde”, contou ao Átomo.

Dona Onete em foto de acervo pessoal

Um dia, quando menos esperava ser ouvida, sua voz chegou aos grupos musicais da região, como Raízes do Cafezal e Coletivo Radio Cipó, e ao cinema, quando participou do filme “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” como cantora. No mesmo ano de lançamento do longa, 2012, nascia também o primeiro CD da artista, “Feitiço Caboclo”, que rapidamente ganhou notoriedade na internet. O festival Terruá Pará ajudou a revelar o talento guardado de Dona Onete, que deslanchou de vez cantando profissionalmente quando tinha 73 anos e já era viúva do segundo marido.

A cantora e compositora não precisa de retoques, nem de grandes arranjos musicais ou do cansado autotune. Em suas melodias, até o boto é namorador e o “tremor do Jambu é gostoso demais”. Quem já bebeu dessa erva tipicamente nortista sabe bem a sensação! O folclore e a cultura paraense marcam presença constantemente nos versos, assim como o romance “safadinho”, como ela mesma já declarou. Apaixonada por suas origens, Onete é a verdadeira personificação do Pará: quente, vívida, colorida e com uma originalidade que só a apaixonante terra do tacacá é capaz de ter.

Fã de bolero, ela diz que ouve até rock, mas a inspiração para escrever suas letras (que precisam até de dicionário por conta das gírias e palavras que só o Pará tem), vem diretamente de suas raízes, da memória afetiva, dos amores que viveu e do contato com as manifestações culturais de sua terra. “A minha tendência mesmo é mostrar as coisas bem culturais da gente, lá dos ribeirinhos, que é o nosso carimbó, nosso banguê, o nosso olodum, a nossa história, as nossas coisas. Eu gosto muito disso. Quanto mais rústico melhor!”

Dona Onete com o Coletivo Rádio Cipó, com quem gravou algumas músicas em 2004 (Divulgação)

A música embala até quem não é chegado no estilo musical. O segredo? É o chamego, evidentemente. “Esse chamego é uma coisa gostosa, um tratamento que o Pará tem. Para quem vive 40, 50 anos juntos, as pessoas não chamam de ‘minha mulher’, ‘minha velha’ e sim 'meu chamego'. Ouvi isso de várias pessoas e acho que esse chamego é nosso. Só a gente aqui sabe lidar com esse chamego. A gente beija, abraça….talvez o lugar mais chameguento do Brasil seja aqui!”, esclareceu. A ótima banda acompanha seu ritmo, e seja em pé ou sentada durante os shows, ela agita multidões, esbanjando alegria.

“Meu suingue é chamegado / Lá o branco, o negro e o índio / Deixou tudo misturado”

Depois de conhecer a França, Portugal, Inglaterra e o Estados Unidos, um lugar em particular chamou a sua atenção: Totonacas, uma pequena comunidade indígena que vive em Veracruz, no México. “Olha, estou indo em vários lugares, muitas nações. Mas eu estive agora em uma cidadezinha de índios, onde recebi uma honraria, e quando disse para eles que eu era índia daqui do Brasil, foi uma alegria total! Eles gritavam, ficaram alegres de se acharem parecidos comigo. E naquela hora eu também me senti parecida com eles. Me senti muito em casa. Tudo lá me lembrava a nossa casa aqui. O carinho deles com a gente”. O fato só comprova o quanto D. Onete é ligada às questões culturais e se emociona com elas.

Passando longe do comportamento de celebridade, no ápice da modéstia ela dispensa o título de diva, deixando-o a critério de quem a ouve. “Uma diva eu não me considero, mas uma pessoa que canta igual as outras pessoas. Só tive a felicidade de ter muito carisma e ser muito humilde, aí leva as pessoas a gostarem um pouquinho de mim”. Um pouquinho? Que nada. O tremor só aumenta. E haja jambu!

Foto: Laís Teixeira/divulgação do CD “Banzeiro”

Banzeiro de Dona Onete foi a música campeã do Carnaval 2018 em Salvador

Dona Onete se apresentará no Festival Path, evento de inovação e criatividade que acontece nos dias 19 e 20 de maio de 2018, em São Paulo.

O show será gratuito! Saiba mais sobre esta e as demais apresentações em www.festivalpath.com.br.

A Redação via atomo.cc

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